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Elisabete Jacinto

"Provei que os sonhos se podem realizar”

Apaixonada pelo todo-o-terreno e pela aventura, esta piloto portuguesa chegou onde nenhuma outra conseguiu: foi a única mulher do mundo a vencer o Rali Africa Eco Race, na categoria camião. Depois das motos (onde foi a primeira portuguesa a enfrentar o mítico Paris-Dakar em duas rodas), dos carros de TT e dos camiões, Elisabete Jacinto, natural do Montijo, integrou as provas de zero emissões poluentes. À TRENDS falou do seu passado, do presente e das ambições para o futuro, que incluem aprender a jogar golfe e aprofundar conhecimentos na área da psicologia do desporto. 

Como é que uma professora de Geografia se transforma em piloto todo-o-terreno?
O todo-o-terreno começou por ser um hobby. Depois de tirar a carta e de comprar uma moto que utilizava como meio de transporte na cidade, comecei a participar nos passeios de todo-o-terreno. Um dia, o meu grupo de amigos decidiu inscrever-se numa prova de competição e acabaram por me incentivar a participar também. Foi um grande desafio, pois achava que não ia ser capaz de fazer nem 70 quilómetros e, afinal, quase terminei essa prova. Apesar de ter desistido (caí num rio e demorei a levantar a moto, porque o motor ficou cheio de água), senti que tinha superado todas as minhas expectativas. Aí concluí que somos muito mais capazes do que acreditamos ser e, talvez por isso, fiquei verdadeiramente apaixonada por esta modalidade. Ficou o desafio de tentar perceber de que é que, afinal, eu era capaz. A partir desse dia, fiz todas as provas do campeonato nacional de todo-o-terreno e, mais tarde, deixei-me seduzir pelas grandes maratonas africanas, pelo Dakar e pelo grande repto que foi a condução do camião. 

Aos 54 anos, em 2019, ganhou o Africa Eco Race, na categoria camião, a competição que substituiu o Dakar e para a qual se preparou durante 27 anos. Esse é o grande marco profissional da sua vida?
Vencer o Africa Eco Race foi a realização de um sonho que persegui durante anos e que consistia em ser reconhecida como uma boa piloto. Para isso era preciso vencer uma grande prova. Não teve qualquer impacto profissional dado que, apesar do título, não consegui a verba necessária para voltar a correr. Em termos pessoais foi bom pois consegui o reconhecimento que procurava. Foi preciso vencer a classificação geral da categoria camião para que as pessoas me olhassem como piloto e não apenas como uma mulher que dá nas vistas por participar num desporto maioritariamente masculino. Fica o exemplo de que não há que ceder a estereótipos de género.

No terreno, qual a grande diferença entre o Dakar e a Eco Race?
O rali Dakar foi, durante cerca de 30 anos, a maior maratona de todo-o-terreno do mundo. Uma prova verdadeiramente desafiante para quem nela participava. Em 2009 decidiram abandonar o continente africano e passou a realizar-se em outros lugares, nomeadamente na América Latina e Arábia Saudita. Desta forma mudou a sua personalidade e, embora tenha mantido o nome que remete à sua origem, passou a ter características mais comuns aos outros ralis. O Africa Eco Race foi a prova que herdou todos os traços que o Dakar prescindiu quando abandonou África. Ou seja, o Africa Eco Race é, atualmente, a grande maratona africana, aquela que nos faz ir buscar forças onde não existem para superar todas as dificuldades e chegar ao fim. Sentem-se vencedores todos os que terminam este rali, independentemente da classificação conseguida. 

A sustentabilidade está hoje presente em todas as áreas. Sente que o todo-o-terreno também tinha e tem de se adaptar às novas exigências do mundo?
A sustentabilidade deve ser uma preocupação de todos nós, pois é a sobrevivência da nossa espécie assim como a qualidade de vida da mesma que está em causa. Na realidade, o todo-o-terreno, tal como todas as atividades que o homem tem desenvolvido, têm vindo a modificar a sua forma de atuação no sentido de agir de uma forma mais sustentável. Dou-lhe alguns exemplos: o meu camião de competição cumpre a norma europeia de controlo de poluição Euro 5, o que era impensável há uns anos. As organizações têm vindo a revelar-se muito permissivas no sentido de facilitar a integração de veículos elétricos (motos e automóveis) que ainda estão numa fase de ensaio e adaptação e não cumprem o regulamento das provas. Para além disto, apesar dos ralis movimentarem um número elevado de pessoas pelo deserto, conseguiu-se que não deixassem uma pegada negativa. As organizações criaram regras de modo que todos os produtos líquidos contaminantes, resultantes dos trabalhos de mecânica, fossem recolhidos para recipientes próprios. Todo o lixo é igualmente recolhido e há até organizações que transportam consigo um camião incinerador para ir queimando todo o lixo não reciclável. Antes ninguém se preocupava com estes aspetos. Hoje é obrigatório.

"Não há que ceder a estereótipos de género”
Na sua opinião, que práticas poderia o rali adotar para se tornar um desporto ainda mais verde?
As grandes maratonas de todo-o-terreno realizam-se principalmente nos países do norte de Africa que têm menores recursos económicos. Assim, a presença destas corridas nestas regiões traz-lhes benefícios económicos pois constituem uma forma de turismo com todo o seu impacto económico. Neste aspeto, é muito importante o consumo dos recursos locais apoiando assim a economia destes países. Para além disso, o respeito pelas populações e pela cultura das regiões por onde passam os ralis, a preservação do ambiente e das características naturais dos espaços é um dos aspetos a que se deve sempre dar prioridade. É claro que é importante também ir tornando os veículos cada vez menos poluentes, assim como adotar novas formas de energia, mas isso vai sendo feito em paralelo com a evolução tecnológica. Todos estes aspetos têm vindo a ser cada vez mais postos em prática, mas penso que se poderá sempre ir mais longe.

Não ouvimos notícias suas desde a pandemia. Deixou definitivamente de correr? A que se tem dedicado?
A pandemia veio fragilizar a economia e pôs em causa uma série de atividades. O desporto está sempre no topo da lista das atividades que não são consideradas prioritárias. Dado que sempre dependi de patrocínios para correr fui obrigada a parar. Contudo, não lhe posso garantir que seja uma paragem definitiva ou apenas uma pausa temporária. Entretanto, tenho outros desafios pessoais. Aprender a jogar golfe e aprofundar conhecimentos na área da psicologia do desporto são dois dos meus objetivos no momento.

"A sustentabilidade deve ser uma preocupação de todos nós, pois é a sobrevivência da nossa espécie”
Que sonhos ainda lhe faltam cumprir?
Em termos desportivos realizei os meus sonhos e os meus grandes desafios. Fiz parte do pequeno número de mulheres que terminou o rali Dakar em moto e venci por três vezes a categoria de Senhoras da Taça do Mundo de todo-o-terreno. Em camião venci vários ralis entre eles o Africa Eco Race e fui, até ao momento, a única mulher a tê-lo feito. Provei que os sonhos se podem realizar por mais ambiciosos que sejam. A missão está cumprida. Faço votos que constitua um exemplo.
T. Filomena Abreu
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