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Trabalhar no Estrangeiro

Carlos Castanheira

Fundador da Carlos Castanheira & Bastai Arquitetos

Carlos Castanheira
"... Eu costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva enquanto todos os portugueses não forem obrigados, por lei, a fazer um estágio de alguns anos no estrangeiro, mas proibidos de se encontrarem uns com os outros. (...)”, Jorge de Sena, Abril de 1968, revista O Tempo e o Modo
No meu caso, emigrei no momento em que comecei a ajudar Álvaro Siza nos projetos de Berlim. Não mais parei. Só cá voltava para sair e depois voltar. Em 81, já com o curso quase concluído, fui até à Holanda. Sempre me fascinaram as loiras e fui fascinado pela Arquitetura, aquela em tijolo. Ditou o destino, que é feito por nós e só por nós, que continuasse a colaboração com Álvaro Siza. Em projetos, mas também iniciando a produção e curadoria de exposições. Concluí, in extremis, o curso e, no Porto, assisti ao incêndio do Chiado. Foi o destino? Não! Foi mesmo o fogo que alterou o centro de Lisboa e me fez voltar a Portugal, para continuar lá fora. Por vezes fisicamente, mas sempre de espírito. As loiras ainda me fascinam, mas partilho filhos e muito mais com uma morena.
Quando se colabora com Álvaro Siza, emigramos, repetidamente, sempre. Tornamo-nos, obrigatoriamente, embaixadores de Portugal pela Arquitetura, mas também pelo que somos e pelo que nos tornamos. Quase sempre ignorados, apetece-nos chamar às janelas fenêtres. Partir para não voltar. O retorno nunca foi o objetivo, mas também nunca se procurou a emigração. Foi ato natural. Necessário. Mais de cem exposições por esse Mundo – quase todas da obra do arquiteto Álvaro Siza, mas também do Homem –, levaram a nossa Arquitetura a muitos. Há nove anos, a amizade levou-nos à Coreia, a do Sul obviamente, e, desde então, a Ásia, a mim, pessoalmente, fascina-me e, aos dois e a outros, dá-nos trabalho. Há nove anos não havia necessidade de emigrar. Também o não sentia em 81. Feliz inconsciente. Mas não perdi a oportunidade. Todos os percursos são um caso e o exemplo de um não servirá para outro. Mas poderá ajudar, sobretudo se houver colaboração e, mais que tudo, como agora se diz, partnership. A intervenção de qualquer órgão, mais ou menos oficial, poderá melhorar e credibilizar a nossa internacionalização, mas terá de ser alvo de um plano bem construído e sem interesses de amigos ou partidários. A História, a nossa, diz-nos que não somos lá muito bons a fazer planos e que, sem uma pitada de amizade, por mínima que seja, nada se consegue. Resta-nos aquilo em que somos bons: o desenrasca. Que nos tem levado a emigrar. Cada um por si. Agora, os novos, para não voltarem.
Continuam a fascinar-me as loiras, as morenas e todas as outras. As oportunidades sempre foram escassas. E hoje mais ainda. Continuarei emigrado e a sonhar que vou voltar. Para partir. Há que dar a volta ao Mundo, pois não há volta a dar. É a História do Mundo e o destino que construímos.
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