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Nuno Miguel Ramos

"Há várias formas de se ser sustentável sem se ser hipócrita”

No centro do mundo das criações está Nuno Miguel Ramos. Moderno, determinado e talentoso, o designer de moda português já percorreu longas caminhadas. E nem sempre teve uma vida fácil. De 11 irmãos, o estilista foi o único filho que teve a possibilidade de viver com a mãe – com quem mantém uma ligação muito forte. Ainda jovem, mudou-se para a Suíça, país onde fortaleceu laços, adquiriu experiências, e onde estudou na Escola de Arte e Design F + F. Viajou, superou vícios, desilusões amorosas, mas não desistiu do seu sonho: a moda. Formou-se na École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne e, hoje, cria coleções que se reconhecem nas passarelas. Gosta de fotografia, pintura, música e tem o desejo de combinar estes mundos com a moda. 

Como é que o gosto pela moda entrou na sua vida?
Quando entrei no ensino secundário não tinha muito acompanhamento. Na altura, não existia quem nos orientasse, havia apenas o psicólogo. Penso que se tivesse seguido Artes, há 20 anos, as coisas tinham sido muito mais fáceis, ou talvez não. Acabei por seguir Ciências, fui atrás dos meus amigos. Aos 18 anos percebi que não era aquilo. Tive, então, a oportunidade de ir para a Suíça, tinha lá a minha irmã. Foi o meu bilhete para a liberdade. Foi assim que comecei. 
Deixei a minha mãe sozinha, que acabou por me originar um sentimento de culpa, apesar de ter sido bom para os dois continuarmos a crescer, independentes um do outro. Parti sem saber quase nada da vida, bati muitas vezes com a cabeça, devido à minha teimosia e ao pensar que sabia muito, quando não era o caso. Não tinha experiência, nunca tinha viajado. Comecei por ajudar a minha irmã em casa, depois tive a oportunidade de fazer um Au Pair, que consistiu em trabalhar com uma família suíça. Devido a algumas circunstâncias, decidi romper com o contrato. Voltei a Portugal. Um mês, depois recebi uma chamada da minha irmã, tinha-me arranjado um trabalho num restaurante. Regressei. Aprendi a fazer pizas, passei por inúmeras experiências e tive uma pessoa fundamental no meu crescimento, o meu patrão na altura. Eu apareci no último ano da vida dele. Dava-me muitos sermões, porque eu era distraído. Durante muitos meses, chorei todos os dias. Acabei, no final, por perceber que este homem foi importante na minha vida porque me fez entender a realidade nua e crua.
Depois, tive outras tantas experiências, às vezes menos boas. Trabalhei em bares, tive contacto com drogas, que acabaram também por me destruir. Foram dívidas, questões de saúde, ..., chatices. Se calhar, sem estas experiências, não saberia o que é o mundo. Quem me deu sempre a mão foi a minha irmã. Acabei por arranjar outro trabalho, numa empresa de genéricos. Aprendi alemão e viajei bastante por Nova Iorque, Paris, ... Após cinco anos, tive uma relação difícil, que me afetou bastante. O meu escape, na altura, foi começar a pintar quadros. Já sem espaço para tantos quadros em casa, arranjei uma galeria para expor o meu trabalho. Se vendesse tudo apanhava um avião e ia para Nova Iorque. Assim foi. Na semana seguinte estava a caminho. Uma vez lá, foi outra aprendizagem. Foi bom. Sem essa realidade não teria entrado no mundo da maquilhagem. Após dez meses, regressei à Suíça e comecei um curso de maquilhagem. Quando terminei, fui trabalhar para a Mac Cosmetics, durante quase um ano. Como vendia bem, começaram a cortar-me a veia criativa. Não estando lá com o intuito apenas de vender, mas sim de aprender, saí. Comecei a fazer maquilhagem para revistas e sessões fotográficas. Estava com 28 anos quando procurei escolas de moda. Estudei três anos numa em Zurique.

Sempre se sentiu um artista?
Sempre. Não tive foi a direção certa aos 17 anos, altura em que tinha de escolher o que que queria seguir. Se tivesse escolhido Artes teria sido diferente. Nunca tive tanta certeza na minha vida de que estou no caminho certo, finalmente.

O que o cativa no universo da moda?
Não estar limitado, é fundamental fazer o que eu quiser.

Em que altura é que percebeu que era na moda que se sentia realizado?
Quando fui viver para Paris. Não era apenas um sonho, mas também um objetivo. Se calhar, foi no dia em que conheci os escritórios da Balmain. Entrei clandestinamente, como se lá trabalhasse. Acabei por falar com uma pessoa dentro das instalações que me tentou ajudar.

Já viajou bastante. Traz alguma inspiração dessas viagens para as suas criações?
Um bocado. Mas as minhas irmãs sempre foram uma fonte de inspiração. Havia sempre vestidos, maquilhagem, ... Uma vez roubei um vestido à minha irmã Sandra e aquilo fez-me feliz. Desde aí que as lantejoulas sempre tiveram na minha cabeça. 

"O homem que sou tem muito a ver com a força das mulheres que existem na minha vida”

O que está a criar para a próxima coleção?
Fiz uma peça em cerâmica pela primeira vez, algo que sempre me fascinou. Aliás, frequentei um curso na área da cerâmica. Não quero apenas fazer moda, quero misturar, adicionar a cerâmica às peças. Desenhei para a Carmila, uma empresa de Londres. Trabalhavam exclusivamente com pêlo verdadeiro, mas repensaram a estratégia e auxiliaram-se num estilista português. Bateram-me à porta. Desenhei para a empresa em 2021, nomeadamente, a coleção de inverno 2022, que será exibida em agosto. As peças envolvem a sustentabilidade. Trabalham maioritariamente com tecidos que reduzam o impacto negativo no ambiente. 

Que materiais gosta de trabalhar?
Lantejoulas para sempre. Costumo ir à Première Vision, a feira dos tecidos em Paris, e tento sempre arranjar tecidos com lantejoulas sustentáveis, algo que envolva essa componente.

De que forma acha que a parte da sustentabilidade é uma mais-valia?
Há várias formas de se ser sustentável sem se ser hipócrita. Na minha marca, normalmente, são utilizados restos de tecidos em stock. Tratam-se de tecidos esquecidos, alguns com 20 anos. Tento adaptá-los, trabalhando com peças únicas. O meu objetivo é mostrar o que posso fazer e onde posso chegar. De onde venho, a minha escola de vida, sei que contratos milionários não são impossíveis. Acontecem todos os dias mas, claro, não é fácil lá chegar. O grande objetivo da minha vida, um dos primeiros, é continuar a carreira até aos 50 anos. Tenho muito para aprender.

As tendências da moda encaixam-se na forma de consumo mais sustentável?
Claro que não. Mesmo nas grandes marcas – porque trabalhei e vi como a produção é feita –, há muita retórica. Em Portugal é fácil, mas uma marca crescer muito, em pouco tempo, já se torna difícil. A sustentabilidade assume muitas formas.
  
O cliente consegue pagar a exclusividade da sustentabilidade?
Acho que não. É complicado. 

Vivemos de tendências. Enquanto criativo, como é que o Nuno consegue dar sempre mais de si?
Não tento, só vem. Está em mim, é intrínseco. A criatividade é espontânea.

No seu ponto de vista, a relação que os homens e as mulheres têm com as tendências é vista de igual forma?
Atualmente, cada vez mais, há homens que se interessam quase tanto ou mais do que as mulheres. Está bem dividido.

Quais são as três peças que não podem faltar no guarda-roupa de uma mulher?
Um vestido de lantejoulas, calças à boca de sino com uma camisa básica e um casaco vermelho comprido. 
"Nunca tive tanta certeza na minha vida de que estou no caminho certo”

A moda portuguesa está ao nível do resto do mundo ou é preciso revolucionar as marcas?
Há várias marcas que gosto, mas há outras que estão na boca do povo internacional e que não retratam o que os portuguesas podem verdadeiramente fazer com a moda. Há várias que não têm visibilidade nenhuma. Acho que acontece porque, para elas, coisas produzidas lá fora são banais e, depois, tentam apostar em coisas conceptuais que ninguém quer saber. Conheço pessoas que não têm visibilidade, mas que têm talento. Há tanta fantasia pouco conhecida... 

Trabalhar com moda foi um sonho realizado. Vê-se a trabalhar para sempre nesta área?
Não acredito que alguma vez mude. Quero explorar o mundo das artes, da música, da fotografia e da moda. Quero combinar tudo. 

Como era o Nuno quando era criança? E como descreve essa fase da sua vida?
Nem todos os dias eram bons. Tive uma infância maravilhosa, mas muito sozinho, porque a minha mãe trabalhava sempre. Apesar de sermos 11 irmãos – dez nasceram em Angola –, eu nasci em Portugal, quando a minha mãe chegou com os meus irmãos tinha deixado tudo para trás, ficou sem nada. Não havia condições para criar todos os filhos em casa. Houve uma altura em que as irmãs mais velhas foram trabalhar, as mais novas foram para um lar de freiras, e os irmãos mais novos foram para a Casa do Gaiato do Porto. Não cresci com os meus irmãos em casa, mas via-os todos os fins de semana, embora nunca tenhamos estado juntos, os 11 em simultâneo, até hoje. Estou a tentar incentivar a que haja um encontro, pela primeira vez, com todos os irmãos.

"As minhas irmãs sempre foram uma fonte de inspiração”

O Nuno, aos 37 anos, está a tentar reuni-los a todos?Estamos todos a tentar. Sempre quisemos. Estamos espalhados por Portugal, a Norte e a Sul, e depois lá fora, em Espanha e na Suíça. 

Mas a infância, era divertida?
Muito, tinha os meus amigos. Cresci na aldeia, em Ul, Oliveira de Azeméis. Foi uma infância livre, muito em cima das árvores, em que nunca se deixavam ficar as ameixas maduras (risos). Desde cedo, a minha mãe ensinou-me as tarefas domésticas, como cozinhar.

Cresceu muito ligado à mãe?
Sim, até porque não cresci com a presença do meu pai. Nunca o conheci. Não faz parte da minha vida. O homem que sou tem muito a ver com a força das mulheres que existem na minha vida, nomeadamente a minha mãe e irmãs.
Maria Cruz
T. Maria Cruz
F. Igor Martins
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