Trends
Catarina Araújo

"O detalhe indefinido"

Paulo Lago de Carvalho

Opinião Anterior
Catarina Araújo

Magia ao estilo do mundo dos ‘hobbits’

Catarina Araújo

Próxima Opinião

"Cadernos do Subterrâneo", alusão a obra homónima de Fiódor Dostoiévski

José Carlos de Oliveira

Fundador e Gerente da Noarq

José Carlos de Oliveira
A sempre auspiciosa passagem de ano trazia clandestinamente um passageiro (… a ver se é passageiro ou se é residente indesejado) insidioso, venenoso, cobarde.O céu cobriu-se de cinza, encerram-se as casas, as ruas desertas. A cidade perdeu o sentido. O tempo consumiu-nos.
A arquitetura foi testada ao seu limite. No interior das casas, ociosas e entediadas, as pessoas em conflito experimentaram os pavimentos, a paredes, os móveis, os objetos.  Reinventaram as suas funções. Recriaram espaços de trabalho, de recreio e de delírio. Enquanto se exauriam no espaço delimitado, que a cada dia as comprimia contra o chão, as pessoas ludibriavam a fatalidade espreitando pela fissura que atravessava o pavimento e as expunha ao espaço virtual. Nunca se tinham dado conta como poderia ser tão cómodo e amplo o espaço de encontro, recreio e trabalho no éter. Lugar hipotético, no meio de lado nenhum. Mal imaginava Platão que quintessência do dodecaedro permitia encontros de multidões. Não, as pessoas não escapavam aos limites da arquitetura.
Rapidamente surgiram os arautos das virtudes nascidas dos cataclismos, sugerindo novos rumos para toda e qualquer atividade. Até os arquitetos deveriam saber retirar lições e saber adaptar as suas obras aos períodos de pandemia. Nenhum problema virológico se resolve com a arquitetura, senão com a imunologia adequada ao seu princípio ativo. Nada que ver com arquitetura.
- Talvez se justifiquem as varandas, as sacadas, os alpendres, os pátios, ou melhor, os jardins ou os quintais! 
Fizeram falta, mas são placebos, não resolvem o essencial: a cidade.
Nunca a civitas foi tão urgente para fugir ao subterrâneo de Dostoievski, onde as paredes só não eram um obstáculo aos homens de coração perverso.
Nunca o vazio foi tão desejado. Nunca o espaço urbano foi fonte de atração como nos duros meses entre Março e Julho passados, para fugir ao cativeiro da arquitetura – vil manifestação de uma das melhores expressões da humanidade. 
O desejo era agora a cidade. A cidade fez-se púrpura e proibida, onde só os imperadores Ming e servidores especiais tinham permissão para entrar e difundir notícias erráticas, ações ambíguas e ideias incoerentes.  
Sem solução entre paredes, a população expandia os excessos criativos e difundia em direto a suspensão das suas vidas que sem saberem eram mais que perfeitas. 
Não foi diferente na Skene da arquitetura. A atenção sobre a arquitetura tem crescido - bem, diria! Normalmente pelo seu lado mais sedutor, mais frívolo, alimentando o narcisismo dos autores e a avidez da população alfa. Plataformas, prémios e distinções surgem diariamente. Porém perante o estado de alarme damo-nos conta que a beleza apenas mitiga o desânimo em que vivemos. Por estes dias a tendência não tem interesse. A tendência que interessa é saber como podem viver as famílias sem a cidade – o espaço de encontro. A tendência é preparar as cidades para existir e viver, todos, e não só alguns.
Política de Cookies

Este site utiliza Cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso. Saiba mais

Compreendi