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Aurora Carapinha

"Muitos decisores políticos não têm a mínima noção do que nós fazemos”  

Foi por acaso da conjuntura do país que, em 1975, acabou por ser a aluna número seis do primeiro curso de arquitetura paisagista de Portugal. Não sabia ao que ia. Em todo o caso, correu bem. Aurora Carapinha, investigadora, arquiteta paisagista distinguida com o Prémio Ribeiro Telles, em 2021, gosta mesmo é de ser professora, de passar o conhecimento adquirido aos mais novos. De pensar com os alunos os problemas prementes que se colocam na área a que dedicou a sua vida. Uma luta pela qual se debate todos os dias. Nome incontornável, declina a importância que lhe atribuem. A voz, usa-a para continuar a tentar lembrar à sociedade e aos decisores políticos a urgência de medidas importantes para o país. 

Foi a aluna número seis do primeiro curso de arquitetura paisagista do país. O que a levou a optar por esta área? 
Eu nem sabia para o que ia. Acabei o que era o sétimo ano do antigo liceu. Em 1974, as universidades fecharam e só abriram 1975. E eu, por acaso, tanto podia ir para letras, economia ou geografia, como para ciências, matemática ou física. Deu-se a coincidência de abrir em Évora, nesse mesmo ano, o Instituto Universitário de Évora, onde havia um curso de planeamento biofísico e paisagístico (não se chamava arquitetura paisagística). E eu fui experimentar, fui ver como era, e gostei. Depois, em 1980, a ideia já era criar um curso de arquitetura paisagística em Évora, mas havia alguma pressão por parte de Lisboa, por se querer criar um curso de arquitetura paisagística fora das estruturas da capital. Mas Ribeiro Telles e uma equipa acabaram por criar este curso que, num primeiro momento, consistia num bacharelato e que, ao fim de pouco tempo, passou a ser licenciatura de arquitetura paisagista. Ou seja, é a primeira licenciatura oficial de arquitetura paisagística. E eu não tinha a mínima ideia do que ia fazer. Inscrevi-me nesse curso, como me podia ter inscrito noutro. Fui para o que abriu primeiro. Aquele era um tempo um bocado estranho. Estranho, no sentido de não se saber bem como as universidades iam funcionar. O curso abriu a 11 de novembro e eu comecei a gostar. A equipa de professores, no início, não era ainda a que me viria a dar formação mais tarde, mas já era um curso de gente muito interessante. E, a partir daí, descobri uma área que, se voltasse atrás, iria escolher novamente.  

Um feliz acaso… 
Sim, sim. Muitas vezes na vida temos surpresas agradáveis e esta foi das agradáveis surpresas da minha vida, entrar para um curso sobre o qual eu nada sabia. Tinha visto uma entrevista de Ribeiro Telles, em 1967 – era ainda muito nova na altura –, sobre as cheias, e achei muita graça. Mais tarde, quando revi o período de Ribeiro Telles na universidade disse: "Olha, este era aquele senhor que desenhava muito bem”. E pronto. A partir daí, fiquei sempre muito ligada ao curso e às ideias e percebi que uma das melhores coisas que existem é poder ver a forma inovadora como a arquitetura paisagista pensava na altura e que ainda hoje é contemporânea. A ideia de melhorar a qualidade de vida das comunidades apaixonou-me e cá estou, nada arrependida. Muito pelo contrário.  

O seu nome é incontornável nesta área e foi sempre extremamente dinâmica. De tantos projetos, há algum mais marcante, quer pela aprendizagem, quer pelas dificuldades que enfrentou? 
Eu adoro ser arquiteta paisagista, adoro a prática e a teoria de arquitetura paisagista, mas o que eu adoro mesmo é a possibilidade de a ensinar. Fazer com que este conhecimento, este corpo teórico e prático alcance um maior número de pessoas. Tentar explicar aquilo que Caldeira Cabral e Ribeiro Telles já diziam, que a nossa profissão era uma profissão do futuro; eles diziam isso nos anos 60, imagine! Hoje, estamos no futuro deles e saber que, hoje, a arquitetura paisagista é fundamental, que reúne conhecimento de muitas áreas, que se aproximam de temas que nós já estudámos há décadas, é extraordinário. Então, o que eu gosto mesmo é de ser professora de Arquitetura Paisagista, porque gosto de partilhar o meu conhecimento.  

Já é professora há muitos anos. Que inquietações têm vindo a perturbar os seus alunos? 
A resposta divide-se em duas partes. A primeira é: será que os decisores políticos percebem o que é que nós somos? É extremamente importante termos essa consciência, a de que muitos deles não têm a mínima noção do que é que nós fazemos. Resguardam-nos, porque pensam que nós só trabalhamos em jardins. Realmente nós começámos há muitos anos, logo no início da humanidade, a trabalhar essa área. Mas progredimos e toda a nossa teoria abrange muito mais do que jardins. O jardim, sendo a obra de arte, não é onde nós nos esgotamos. Veja-se o que acontece agora, quase de uma forma, direi mesmo, tonta e ignorante, por parte de alguns decisores políticos, que pensam que o problema da habitação se vai resolver com a ocupação de solos agrícolas, da RAN (Reserva Agrícola Nacional), acreditando que podem vir a ser solos de construção. Isso é um disparate, é uma inquietação de todos nós. Enfim, acabamos por ter casas, mas comprometemos o nosso futuro em termos de alimentação. Já importamos muito, mas dessa maneira iremos importar muito mais. E não esquecer que esses solos são também muito importantes para o ciclo da água. Em segundo lugar, não tendo os decisores políticos essa consciência, viraram-se novamente para um conhecimento fragmentado, para biólogos, geógrafos. A palavra sustentabilidade hoje é quase vaga, nem percebo bem do que muitas vezes estão a falar. E isso determina que os jovens e as inquietações deles, muitas vezes, estejam mais numa visão muito fechada só nas questões de ambiente e pondo, até, o Homem fora dessa questão. E é fundamental que ele esteja lá inserido e que saiba gerir, com visão integrada e sistémica as questões do ambiente, da economia, da cultura, com a presença da humanidade, com as questões da sociologia. Não há só uma resposta para cada uma das questões da contemporaneidade. Há um conjunto de respostas múltiplas e o que nós estamos a ver, cada vez mais, é uma fragmentação do conhecimento. 

"O que eu adoro mesmo é a possibilidade de ensinar a arquitetura paisagista” 
O nome também pode enganar... Por norma, as pessoas acham que o paisagista tem muito que ver com jardins apenas, algo bonito… 
Pois, eu não sou uma arquiteta mais ou menos paisagista. "Paisagista” não é um adjetivo qualificativo. Caldeira Cabral dava-nos sempre esse exemplo. O limpa-chaminés é o limpa-chaminés. Se eu disser só limpa, não chega. Se eu disser só chaminés, também não. Portanto, se eu disser arquiteta ou se só disser paisagista falta-me sempre uma outra dimensão, a dimensão de que, tendo uma visão sistémica, tendo um conceito de paisagem operativo, tenho agora de saber desenhar e, a partir da criação, desenhar o futuro, antecipar os problemas, resolver os problemas da contemporaneidade, através da criação de espaços. Nós somos criadores de espaço e de lugares para as pessoas e para todos os seres vivos habitarem com qualidade de vida.  

E muitos desses problemas, como disse, se já fossem vistos como urgentes há muito anos, hoje, pelo menos, já estariam num bom caminho de resolução…  
Eles são pensados e discutidos há muito tempo. E estão escritos e são estudados há muitos anos. Mesmo no curso livre de arquitetura paisagista e agronomia, em textos de Ribeiro Telles, de Caldeira Cabral, de Ilídio de Araújo e de muitos outros de outra geração, já se punham essas questões. Só que, de facto, nós funcionamos um bocadinho como o grilo do Pinóquio, a gente passa o tempo contra a corrente e todos nós sabemos, por exemplo, que a profissão de arquiteto, desde o renascimento, é quase um braço da representação do poder. Se perguntar qual é o arquiteto paisagista, sem ser Ribeiro Telles, que conseguiu ser ministro da qualidade de vida, subsecretário de Estado, vereador da câmara de Lisboa, e que conseguiu, nessa altura, implementar um conjunto de medidas interessantíssimas, em relação à qualidade de vida das pessoas, só vai ver esse nome.   

Em relação à atmosfera, ao clima, já temos vários problemas. Cheias, secas… A atenção dada hoje aos planos de drenagem já devia ter sido feita lá atrás? Porque agora parece não estar a ter impacto… 
Não, não está. Em relação ao plano de drenagem de Lisboa, eu acho que temos de pensar em planos de gestão do ciclo da água. Na drenagem, nós tiramos a água em excesso. Ora esse excesso, hoje em dia, é extremamente importante. Ela está em excesso, em determinada altura, mas precisamos dela quando ela está em deficiência. E, portanto, deveríamos pensar noutros sistemas, que não passassem por drenar a água e depois deitá-la fora. Obviamente que o plano, esse plano de drenagem que está a acontecer em Lisboa, tem algumas atitudes que estão a ser complementares, mas devia ter muitas mais. Não se pode esgotar nessa resolução, chegar de A a B rapidamente e pôr de lá de fora a água, quando nós cada vez mais vamos precisar mais de água e vamos precisar também mais de solo. Se continuarmos a impermeabilizar – isto é uma ideia que quase pode chegar ao absurdo –, se continuarmos a dificultar a permeabilidade, a entrada de água no solo e alimentar os diferentes aquíferos (o que vai acontecer), cada vez mais teremos de construir maiores sistemas de drenagem dos túneis. Temos de nos complementar com um conjunto de medidas: diminuir a impermeabilidade do solo cria mais bacias de retenção, de maneira que a água que escoa nesses túneis, para o rio e depois para o mar, seja cada vez menos e eu consiga ter mais água reservada. É tão simples, é bom senso.   

Além desses desafios, antigos e atuais e que provavelmente continuarão a ser desafios do futuro, gostaria de acrescentar mais algum? 
Há tantos. E um dos maiores é deixar de pensar que jardins são palcos e que a paisagem é um palco, que é uma cenografia onde tudo acontece. Nós assistimos constantemente a destorcimento do conceito de jardins, de alameda, de parque, para uma coisa que se substituiu pela ideia de espaço verde. E tudo pode acontecer, como festivais de música, quando essas estruturas, independentemente da sua tipologia (parques, alamedas e outras), podiam ser espaços pela sua natureza, pela matéria, pelo desenho que apresentam. Podem ser espaços muito interessantes, que oferecem, em ambientes completamente artificiais que são as cidades, esse contacto com uma natureza que nós consideramos ser fundamental e da qual somos parte. A meu ver, o artificialismo é cada vez maior. Obviamente que, se não estabelecermos novamente este vínculo relacional que tínhamos com a natureza e sempre tivemos, porque somos parte dela, pertencemos a esse universo, quanto mais formos criando essa dicotomia entre o urbano e o rural, pior será. Tudo é muito mais difícil. 
Filomena Abreu
T. Filomena Abreu
F. Paula Corte-Real

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